14 de dezembro de 2007

O Tom nunca muda

A única coisa que me faz chorar como uma criança, não de tristeza, não de felicidade: bossa nova. Às vezes boto umas músicas de Vinícius, Tom e dá toda aquela quentura no peito. E engraçado que, mesmo eles já não estando mais entre nós, sempre consigo achar uma música nova deles, uma música menos famosa mas que tem lá seu ritmo único e uma letra gostosa de se cantar.

É estranho como isso não acontece nas músicas de hoje: a maioria das letras possui uma letra que nos penetra por algum pouco tempo para logo depois sumir na memória. Já com a bossa a coisa é mais fina. As músicas falam quase sempre de um Rio de Janeiro que já não existe mais, de amores como não se vive hoje, tem ritmos que nenhum compositor dos tempos de hoje consegue criar.

E tudo isso me fez concluir que na verdade esse movimento musical ímpar na música brasileira se fez único pelas circunstâncias de uma Copacabana, uma Lapa como nunca seremos capazes de ver novamente. Incrível como você é capaz de se perceber cada gota cristalizada de uma chuva parada no tempo nas mais belas músicas que representam o movimento ('Chega de Saudade', 'Wave', 'Tarde em Itapoã', entre outras); Uma chuva como não se regam os solos desse Brasil a muito tempo (hoje os altos teores de dióxido de carbono só fazem chover ácido).

Cultuar o passado talvez não agrade tanto aqueles que tem uma visão progressista, mas acho difícil resistir a uma bossa quando o que temos para ouvir por aí perde tanto em qualidade. Muito pelo contrário, aquela época que tanto pecou pelo excesso de lirismo nas canções talvez possa injetar um veneno qualquer que amoleça os corações de pedra de uma geração cada vez mais alheia aos próprios sentimentos.

24 de novembro de 2007

Os outros

Certa vez no metrô, encontrei um menino, esperto de tudo, que estava impressionado com a velocidade que o vagão atingia. Era a única figura que se destacava na multidão tão acostumada com o dia-a-dia do transporte público, fingindo que surfava enquanto os trens faziam uma curva em alta velocidade. Sentou-se ao meu lado. Fiquei inqueito e tirei os olhos do meu livro para puxar um assunto qualquer. "Gosta de ler?". Respondeu afirmativamente e até citou alguns livros preferidos. Fiquei encantado com aquele guri, que desceu na estação seguinte junto com a mãe que ralhou com ele por falar com estranhos.

Naquele exato momento me deu um estalo de querer escrever para as crianças. Quis medir a minha infância com a dele, mas jamais saberei (os trens voltaram a se locomover) o que aquele menino esperava encontrar nos livros, ou ainda o que fazia ele gostar de ler. As perguntas brotavam aos milhões.

E naquele instante eu me questionei o que eu gostava de ler e o porquê que eu lia, por exemplo, aquele livro ali, bem nas minhas mãos. A resposta não caberia aqui e vou emiti-la. Pensei se o meu porquê de ler seria em algum momento semelhante ao porquê daquele garoto. Talvez a maioria das motivações não fosse nem em parte idênticas, mas um algo em comum com certeza existia.

Pensei que escrever seria uma tarefa muito árdua se eu tivesse que me restrigir a um público muito restrito, como apenas aquele menino que a alguns instantes saíra com sua mãe do vagão. E eu, como quem escreve, pensei que deveria escrever despreocupado com o público que me lesse, pois o que eu escrevo é pessoal, mas é um algo que desejo compartilhar com todos, inclusive com aquele menino se algum dia ele achasse algo escrito por mim. Deveria centrar o que escrevo ao redor de mim mesmo. Deveria viver centrado ao redor de mim mesmo.

4 de novembro de 2007

Rabiscos Inconcretos

É preciso perder a liberdade para saber valorizá-la. Seguindo essa premissa, dois eus se separam em espaços diferentes da escrita e se encontram para compor a minha existência, apesar dos atropelos e confusões. E dessa vontade ambígua de querer e não querer escrever, nasceu o meu caderno, onde guarde recortes poéticos da minha vida. Torno-os indecifráveis e irreconhecíveis, ao ponto de que nem eu mesmo consigo lembrar o que me ocorreu.

Acredito que se você quer transmitir algo de diferente nos seus textos, o seu eu não deve importar. Há causos e causos, cada pessoa vive e tem experiências de vida diversas. Escrever pra mim é o ponto de encontro do meu sentimento com o sentimento do todo. É a generalização das idéias, provocação das discussões. Acredito que apenas somos capazes de entender quem somos e definir pontos de vista se pararmos para pensar em tudo que fazemos e tudo que os outros fazem. A literatura pode ser uma mentira do ponto de vista de que grande parte das coisas que se escreve é ficção. Mas ainda assim, é possível aprender muita coisa com personagens, situação dramáticas e literárias. Os contos que líamos quando crianças pregavam bem isso, os livros e textos literários de hoje, com nós crescidos, não é diferente.

Quanto à liberdade: no meu caderno tenho liberdade, principalmente para errar. Tenho uma cobrança pessoal muito forte, e às vezes sinto que isso inibe alguns textos de saírem. Mas lá eu posso fazer qualquer coisa, posso tentar, posso errar, posso mudar, tudo simples como a borracha e o lápis. Se por um lado aqui tenho toda essa pressão pessoal por um algo de qualidade, lá é onde eu relaxo o braço e as idéias.

Juntando isso, forma-se o caderno de idéias pré-maturas e sentimentos confusos. Mesmo com essas características tão peculiares, às vezes me sinto mais à vontade de escrever lá do que aqui. Talvez por essa cobrança lá ser atenuada. Mas ainda assim, gosto de manter comum no blog e no meu caderno esse aspecto literário e confuso. Se por ventura ele parar em mãos erradas, vão se dar conta de que, talvez, a vida da pessoa ali descrita não é a minha, mas de um outro alguém.

31 de outubro de 2007

Todas as cartas de amor são ridículas

Foi relendo texto passados, rascunhos e idéias em forma de semente que eu fui dar de cara com uma "carta" muito especial. Quando escrevo um texto lírico, tenho o objetivo de causar um baque no leitor, despertá-lo para algo que acredito ser verdadeiro. E curiosamente, reler essa carta direcionada (cujo o nome da interlocutora não importa) fez com que eu caísse numa armadilha feita por mim mesmo. E para compartilhar esse momento tão sutil que tive, eis o texto, do "rascunho" para o blog.

Declaração

Que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
Ferreira Gullar - Metade


Eu preciso te confessar que desde que meu peito experimentou aquela inquietude, eu não tenho tido meu sossego. Se me pego parado, penso em você. Eu, que até a pouco tempo, me achava cético para os assuntos do coração de repente surpreendido, pego no contra-pé. Não esperava as suas palavras, não esperava ler a palavra amor sob um contexto tão confuso, tão complicado.

"Onde você mora?" "Eu moro no Paraíso, perto daquela igreja, sabe?" "Eu nunca estive lá, mas minha vida inteira é isso, um querer estar no Paraíso e sair desse lugar." - pensei, mas não falei.

Hoje eu passei por onde você mora. Tomei um café demorado e me deixei estar lá. Eu amo a Avenida Paulista, é um lugar onde me sinto à vontade como um paulistano, lá meu coração bate mais alto. Mas minha âncora no meu lugar era um pensamento perdido de alguém que estava longe. Saudade. Se dependesse de mim, tomaria café até você voltar. Pensei na sua companhia ali também, dividindo aquele espaço que se tornara tão sagrado para mim, uma conversa despropositada falando da vida, do que já se viveu. Paguei a conta e sai.

Cada passo de volta para casa me remetia a um verso, uma poesia que não tinha por onde sair e morria em mim mesmo. Eu ouvia o peito um pouco mais acelerado e era a sua lembrança, de um algo que a gente não havia vivido ainda. E lá se ia meu sossego, num ônibus de São Paulo, rumo a minha casa. Meus olhos ganharam um viés que só sabe te enxergar e te lembrar.

E hoje, aqui, nesse escrito, eu sou mais um coração do que duas mãos escrevendo. Não sei o que o futuro nos aguarda, nem sei se de repente você é a pessoa certa, a pessoa que eu aguardo, mas naquela nossa conversa você ganhou mais do que meu respeito apenas. É necessário respeito aos loucos, aqueles que vivem além da lógica, se é que ela existe no dia-a-dia. Você me mostrou mais do que apenas um olhar e uma demonstração de cuidado com o seu medo de me magoar, e digo que aos poucos você está me ganhando. Balanço agora uma chave na sua frente e digo "se quiseres meu coração, a casa é sua e pode entrar". Já não tenho tanto medo da solidão, e por isso mesmo não tenho medo de quebrar a cara em outro amor. Independente do que será do amanhã, se um sim ou se um não (o tempo dirá), saiba que você conquistou para sempre um espaço no meu coração. Sou uma promessa: enquanto não houver uma resposta, sou teu. Porque o teu amor "comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte".

Beijos.