4 de junho de 2008

Privatização do português

Começou com uma brincadeira na sala de reunião da com o alto escalão da empresa. E se registrassem o nome da empresa, a QuaNTo (cujo significado deixo em aberto) de modo que cada pessoa que grafasse de alguma maneira se nome tivesse que pagar uma quantia simbólica pelo uso do nome? Os advogados entraram na justiça para requerer o direito e ver no que dava.

E justo num daqueles buracos das leis, que só os especialistas entendem, a empresa conseguiu ganhar a causa, sendo estipulado o fato de que a cada vez que a palavra 'quanto' (com qualquer combinação de letras maiúsculas ou minúsculas) a pessoa deveria pagar um centavo de real à empresa. E mal sabem vocês a quantia alarmante que a empresa lucrou em curto período de tempo, de modo que as pessoas já estudavam táticas para driblar o uso da palavra.

Este caso tornou-se um marco sem precedentes em termos de economia e língua portuguesa. Aproveitando a morosidade da justiça, empresas começaram a patentear palavras soltas da língua portuguesa sob o pretexto de que as tais eram acrônimos para nomes de produtos, subdivisões do empreendimento, marcas, nomenclatura de protótipos, etc. Alguns tiveram destaque internacional, como a empresa "a", que surgiu do nada e tão logo possuia um dos maiores capitais do país, com ações na bolsa e tudo mais.

Visando apaziguar os ânimos e percebendo-se do potencial econômico de sua própria língua nativa, o governo soltou um pacote de medidas que previam a venda de conjuntos de palavras ainda sem dono. Algumas palavras foram repatriadas e postas a leilão, a título de cobrir os enormes gastos causados pelo buraco na legislação. Escritores (atividade posta em risco ante a ameaça de cobrança por palavra) em suas colunas no jornal não poupavam veneno em seus textos: quem dizia que não era possível ganhar dinheiro com o português?

28 de maio de 2008

Hiato criativo


E lá está novamente o mundialmente conhecido escritor, na frente de sua máquina, o cigarro aceso e os dedos nervosos aguardando as nervosas batidas nas teclas de sua Olivetti elétrica. O expediente no trabalho fora bastante produtivo e tinha certo o fato de que, tão logo chegasse em casa, botaria em papel mais um bom texto para ser publicado.

Mas as coisas não fluiram tão bem quanto se esperava. Passava já do segundo maço e a pequena sala improvisada onde ficava a escrivaninha e sua máquina já se turvava com o tanto de fumaça. Tinha certo o tema para mais um texto no retorno para casa que já até recitava para si mesmo as linhas do primeiro parágrafo. Fato é que no papel não ficou tão bom quanto na fala, e lá se foi um papel pra lixeira.

Quem escreve tem que se resignar: tem horas que o santo definitivamente não baixa. E ficamos adiando entregas prometidas para datas, quando escrever depende muito mais de algo que nos é desconhecido do que propriamente de nós mesmos.

O escritor tomou em mãos o jornal do dia (já de ontem, pois passara da meia-noite). As notícias de sempre: nononono nononono nono no nonono. Pensou em escrever sobre isso, mas quando os ingredientes são ruins, a sopa sai insossa. Matou as cruzadinhas do dia afim de achar uma palavra que desencadeie o fluxo de idéias, rumo a um texto esplendoroso. Em vão.

Já meio entregue ao sono e com o pulmão menos saudável (foram 5 maços em toda noite), desceu até a padaria da esquina onde foi tomar um café-da-manhã para se recompôr. Foi quando a mocinha veio lhe trazer o desjejum que lhe veio o lampejo. Marcou a idéia para um texto genial num guardanapo que, posteriormente pela falta de atenção, usou para limpar a boca. Antes de voltar à máquina, decidiu cochilar, quando esqueceu sua idéia e sua necessidade de escrever.

15 de maio de 2008

Existência

Mas... o que é o ser humano senão seus desejos, suas vontades e sua manifestação em relação ao todo em que vivemos? Somos a provocação viva, o argumento e a dúvida. Existir assusta, impressiona, encanta ou incomoda, mas é essa sensação exata que comprova nossa existência ante todos.

O que as coisas são quando não olhamos? As coisas são as coisas em si: o vaso, a cama, os livros sobre a mesa e a mesa em si. O que diferencia o ser humano das coisas é que, quando ninguém está olhando, não somos nós: somos nossas sombras. E vamos deixando de existir assim, aos poucos, até que um par de olhos venha nos salvar.

1 de janeiro de 2008

O passado passado está

Meu final de ano pode ter sido insosso, mas é consequência direta de uma série de circunstâncias que incluem a ocasional falta de dinheiro e uma mudança radical nos planos. Mas ainda assim teve espaço para uma ceia modesta, um vinho para se beber só nessas ocasiões e um pouco daquele ambiente familiar que se tenta resgatar nessas épocas. Mas o meu fantasma de fim de ano não consegue descansar em paz (talvez o cujo não tenha morrido ainda em consequência disso) pois achava justo que eu compartilhasse umas poucas palavrinhas aqui. Eis-me.

2007 foi um ano turbulento, cheio de coisas que botam a gente pra pensar. Afastei o fantasma do desemprego com meu primeiro estágio oficial, embora eu já trabalhasse desde o segundo ano da faculdade. Comecei a ver a cor do dinheiro e, não nego, fiquei encantado e praticamente escravo dele. Mas além disso tudo, serviu para eu perceber que tudo aquilo que a gente aprende na faculdade de fato vai servir para alguma coisa. Pode parecer bem contraditória essa afirmação, mas a formação que temos é bem mais acadêmica, o que faz pensar bastante se estamos preparados para o mercado de trabalho. Agora posso dizer que sim.

Foi um ano de conquistas pessoais também. Comecei a treinar para valer atletismo e percebi a importância da participação, constância nos treinamentos, disciplina e sobretudo o esforço para manter a equipe unida e vencendo. Rigososamente eu não ganhei nada esse ano, nossa equipe de atletismo de longe foi uma das melhores, mas tentamos, treinamos e certamente demos muitas risadas. Acho que encaixar o esporte na vida é algo difícil para a maioria das pessoas, devido a toda essa correria. Mas senti que dessa vez foi diferente e consegui levar mais a sério esse ano. Que agora em 2008 seja parecido.

Muita coisa a mais aprimorou esse meu senso de coletividade. Contrariando um pouco minhas próprias expectativas, dei um pouco de voz aos movimentos políticos que abalaram a USP no primeiro semestre. Sinceramente não fui à reitoria ver os estudantes ou prestar apoio ao movimento que tomou o prédio, mas ao menos fui me informar a respeito do que eles protestavam. E dei razão. Um pouco mais que isso, redigi longos textos e participei de discussões acaloradas sobre os temidos decretos do Serra. Acredito que aprendi a ser mais crítico com a realidade depois desse episódio. Estou de olho no que acontece no mundo e estou pronto para discutir (aqui, talvez?).

E certamente, participar de trabalho voluntário foi um dos grandes ganhos para esse ano. Era uma vontade que antes era apenas uma semente e já nesse final de ano vejo-a brotar. Ajudar acabou fazendo um grande bem para mim mesmo, fez-me sentir com poder para mudar o mundo, mesmo que em uma parte quase insignificante. Mas tenho a certeza de que aqueles poucos atendimentos que participei esse ano foram o suficiente para alterar o rumo de muitas vidas, de um jeito que eu nem sequer consigo imaginar (mas tenho certeza).

Talvez esse ano que acabou de passar não tenha sido o melhor ano da minha vida ou aquele em que eu estivesse totalmente feliz. Teve seus problemas como todos os anos têm, trouxe tristezas e felicidades em doses não tão iguais. Foi um ano diferente. Foi um ano talvez de botar a mão na massa e tentar fazer algo de bom para mudar esse mundo e a mim mesmo. E não sou nem louco de querer me mudar e ser feliz ao mesmo tempo: sei que tudo são fases num mesmo copo que não se misturam. Agradeço profundamente pelo que ficou, de uma maneira sóbria e lúcida, como uma verdade que toma corpo bem diante dos meus olhos. De 2008 apenas espero o óbvio.