3 de fevereiro de 2009

Anti-merchandising

(começa com uma frase de efeito e termina com uma história real)

Emagreci 5kg nos primeiros dias: era a depressão que me roia os ossos. Te amei, te amava (os tempos verbais todos se confundem) por tanto tempo, que o simples pensamento de amanhecer sem a perspectiva de você me azedava a boca, ao ponto que a comida que entrava, quando entrava, era pouca e caia mal no estômago.

Chorei. Chorei absurdos, a tal ponto que acreditei ter perdido os 5kg assim: no choro. Tornei-me inútil e tão pouco necessário. Apenas ficava ali, parado, num transe. As coisas paradas se mexiam e por alguns momentos te vi atravessar a porta desesperada, em vão. Tua imagem virou pintura na porta por onde te vi passar e dizer adeus.

Comecei a fumar e cheguei a arquitetar minha própria morte. Deixei os dois, pois nenhum caminho me levava para o teu lado.

Passei a me torturar com as fotos de nós dois juntos. Amei-te tão profundamente que seria capaz de construir a ponte no abismo, brotar uma rosa no chão. Quis teu cheiro em um vidro para dele fazer meu vício, meu perfume diário e ocasional. Nada ficou senão a sua imagem, e as nossas fotos, na minha mão, se apagavam com tamanho querer.

Hoje sou resoluto e batalhador. O tempo fez questão de apagar as nossas memórias, mas como um jarro de água no deserto, restaram de mim 5kg a menos de gente e uma sede absoluta que rios, lagos e oceanos não conseguem levar.

26 de setembro de 2008

Alegria Barata

A vida anda cada vez mais corrida e cheia de empecilhos para se viver. Que se dirá de nós, nesse presente de 30 anos depois de hoje, onde as coisas tornaram-se menos humanas e tudo gira em torno do dinheiro?

Fato é que nesse nosso futuro-presente, os avanços tecnológicos se fizeram presentes e coroaram a civilização com a maior das invenções: a alegria. Não a alegria, sentimento que brota como uma flor que rompe o asfalto, mas a alegria essência. Através de processos físico-químicos complicadíssimos, cientistas conseguiram sintetizar em sua forma mais pura a alegria, nosso remédio de cada dia.

Não demorou para cair na industria a miraculosa fórmula, que deu à alegria as mais diversas formas para consumo humano: latas de 350ml, garrafas de diferentes volumes, em pó (para ser misturado com água ou inalado), em pastilhas, drágeas, para fumar, injetável, emplastro, creme, etc etc. O número de opções era tamanho que logo a alegria tornou-se bastante acessível às mais diversas classes sociais. Foram os tempos da alegria barata.

O efeito colateral, não previsto pelos químicos e farmacêuticos, é que a alegria gerou uma dependência em massa sobre seus consumidores. A alegria então tornou-se a droga legalizada com o maior número de dependentes químicos em toda a história da humanidade. Em pouco tempo, a especulação sobre a necessidade da alegria elevou os preços de todos os produtos, de tal modo que a alegria passou a se tornar artigo de luxo perante a sociedade.

A maioria da população passou a consumir a alegria em doses cada vez mais espaçadas, na tentativa de dar um pouco de sabor e cor em tempos tão cinzentos de máquina, cotidiano e contas a pagar. Mas certamente os maiores afetados pelo processo foram as classes menos privilegiadas, que passaram a não encontrar em sua existência um resíduo de alegria. Persiste no tempo a sabedoria popular de até hoje: "alegria de pobre dura pouco". E a nossa (nos dias de hoje) muito menos.

26 de agosto de 2008

Retrato IV

Súbito o susto ao me deparar pela manhã ao lavar o rosto o fato que não possuia mais boca. Fora apagada da minha existência como se por um capricho de Deus houvesse a borracha do existencial e com algum atrito sumisse com minha boca. Queria abri-la, por dentro, mas a pele a envolvia como a mais forte fita.

Desesperado, saí de casa em busca de amparo e quando percebo estou no meio da rua de pijama. A porta magicamente some atrás de mim. As pessoas andam indiferentes a sua situação: sem sorriso, sem boca. Entro em um banco e tento pegar a caneta com a qual se preenche os dados dos depósitos nos envelopes, quando sou duramente repreendido pelo guarda com uma porrada na mão. Ele, incapaz de falar, me olha com reprovação e saio.

Torno à rua, mas não estou mais lá: me encontro agora num desfile de carnaval. As mulheres sem bocas persistem e rebolam seus corpos semi-nus para uma platéia que, na falta de grito, arregala bem os olhos para poder ver e demonstrar sua aprovação. Sinto um beliscão do diretor de evolução da escola, que me aponta para o fim da avenida (pedia que eu fosse para lá...) e fazia mimicas de alguém desfilando (...alegremente). Como é possível ser alegre sem sorrir?

Ao final, desemboco por outra travessa do tempo-espaço e me encontro numa editora de um influente jornal. Desesperado, pego a primeira caneta que me aparece e um pedaço de papel e chamo atenção de uma pessoa qualquer. Tento escrever, mas minha mão vacila insistentemente e a sinto formigar após um certo tempo. Não posso escrever. Meu suposto interlocutor me reprova cerrando as sobrancelhas e mandando eu me fuder com um gesto. Sinto vontade de mijar e entro no banheiro

onde (como já era de se esperar) não estou no banheiro. Estou num cemitério com um jazigo aberto onde não contenho a minha vontade e mijo, ali mesmo. Um cortejo de sem bocas aparece carregando consigo um caixão cheio de textos meus: os que eu escrevi, os que eu não terminei, os que eu não escrevi e os que nunca me passaram pela cabeça escrever. Jogaram com força cova abaixo e foram embora, os homens de roupa e chapéu pretos.

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Quando acordo já é tarde. Sinto a necessidade urgente de escovar meus dentes e cerrar minha boca com a linha e a agulha do improvável, rumo a mais um dia de culto ao silêncio.

21 de junho de 2008

Arte em crise

Nos últimos meses vem se observando os seguidos escândalos ligados a roubo de quadros em renomados museus de São Paulo, inclusive um deles dizia-se um dos mais seguros. Perplexa, a polícia recorreu à ajuda internacional acionando a Interpol, para ajudar a solucionar o caso intrigante. Foi quando, por livre e expontânea vontade, um homem se apresentou a uma delegacia de polícia, num dia qualquer e assumiu a autoria dos crimes. A imprensa choveu na porta do estabelecimento tão logo soube que o autor dos crimes fora detido.

Movido para o prédio principal, onde ficava a elite da polícia para investigações do gênero, seguiram crimonoso e policiais para a sala de interrogatório:

- Muito bem, você se entregou de livre expontânea vontade. Acredito que não será trabalhoso dizer o que o motivou.
- Já me entreguei, não vejo lógica em querer saber meu motivo.
- Veja bem, se não soubermos o que o motivou, somos incapazes de apurar se você realmente foi o autor dos crimes.
- Se quiser provas concretas, dou o endereço onde estão os quadros e explico como entrei no museu com detalhes.
- Mas ainda assim, você se entregou! Porque raios cometeria um crime e se entregaria depois?
- ...
- Queria vender os quadros para o mercado negro? Fez isso por fama? Um teste às suas habilidades de gatuno? É louco?
- O que o interessa é minha motivação e não o crime em si?
- A curiosidade é parte da natureza humana.
- Pois bem, vou lhes dizer porque roubei os quadros. Na verdade, foi tudo planejado há um bom tempo. Sou um homem de posses, honesto e grande apreciador da arte. Faço parte de um grupo de pessoas que organiza eventualmente exposições de arte, recitais, saraus, tudo aberto ao público. Entretanto o número de pessoas que apareciam era cada vez menor, restringindo-se cada vez mais aos membros de nossa sociedade. Fizemos várias reuniões para promover discussões relativas a degradação a arte junto ao povo brasileiro. Ficamos transtornados em verificar com registros estatísticos de fontes confiáveis, que mesmo estando num dos países mais ricos em termos de variedade cultural e expressão artística, o brasileiro se distanciava cada ver mais dos livros, do teatro, dos museus.

"Decidimos então tomar decisões drásticas e organizamos o roubo nos dois museus de São Paulo. Utilizando o capital que nossa instituição possui, além de contatos clandestinos que eventualmente conseguimos, nos infiltramos no ramo de captação de obras de maneira ilícita. Você ficaria impressionado com o que já foi roubado não apenas no Brasil, mas no mundo todo: peças antigas, de séculos atrás, pinturas, esculturas, escritos originais, cópias de livros com baixa tiragem. A troco de um bom montante, conseguimos informações e ferramentas para orquestrar nosso crime.

"Não tivemos o intuito de fazer nada com as obras, tanto que algum tempo depois vocês encontraram os quadros intactos do roubo do MASP. Fomos nós mesmos que fizemos a denúncia anônima sobre o paradeiro das obras. Nosso objetivo era chamar a atenção para o descaso com a arte brasileira. Em Minas, obras de Aleijadinho sofrem constantes depredações por parte dos turistas; em São Paulo o próprio MASP teve sérios problemas financeiros. Mostramos com o nosso roubo que a segurança dos locais que guardam o patrimônio cultural do Brasil e do mundo são exatamente o reflexo do interesse geral na arte: nenhuma.

"Veja o baque que causamos: depois do roubo das obras do MASP, o número de visitações subiu! É claro, pois todos temem que algum dia sejam incapazes de ver algum dia as obras de Portinari e Picasso assim, tão de perto.

"Decidi me entregar, e meus camaradas o farão logo em seguida, pois uma hora nossos roubos seriam tão triviais quanto chacinas e escândalos no congresso. Veja o baque que causamos: depois do roubo das obras do MASP, o número de visitações subiu. É claro! pois todos temem que algum dia sejam incapazes de ver algum dia as obras de Portinari e Picasso assim, tão de perto e cansaram de adiar sua visita antes que seja tarde demais. Nos entregamos para fazer mais barulho e acordar esse povo para a beleza que se encerra em seus museus, antes que os piratas internacionais surjam e levem de vez esses quadros."

Colocando as algemas no homem, o policial ficou perplexo com a declaração, mas não pode negar, ainda que consigo mesmo, que ele tinha toda a razão.