6 de março de 2009

Novo Colaborador

por Justino Jesus da Paz

Já dizia minha avó que não devemos disperdiçar as oportunidades. E foi com essa linha de raciocínio que eu aceitei (na verdade, antes eu aproveitei outras oportunidades e elas acabaram se aproveitando de mim, espero não estar no caminho errado) a oportunidade de me tornar colaborador deste blog, junto a meu amigo João. Certamente poucas pessoas me conhecem. Pra ser exato, nenhum de vocês deve me conhecer, porque nunca dei as caras por aqui, nem em citação, mas tudo bem.

Aos perdidos eu explico: eu e João praticamente crescemos juntos e fui uma daquelas amizades de infância que vingou. Algum tempo sem se falar, acabei o encontrando e matamos as saudades. Algum tempo depois, numa conversa aleatória em algum bar de São Paulo, bebericando uma cervejinha (na verdade foi por Gtalk e eu sou abstêmio, mas acho que assim dá um ar mais boêmio), comentei da minha infelicidade com a minha profissão. Ah, eu sou jornalista. E então meu amigo se ofereceu para me dar um teto nesse espaço virtual para tentar me reencontrar com "a beleza subliminar das crônicas e histórias".

Certo, a primeira coisa que fiz foi acessar o blog e ver os 'posts', como diria ele. Vá lá, alguns textos meio chifrins, mas não era mal. Pelo menos não tinha (muitos) erros de português. Me interessei e falei para ele que toparia escrever uma coisa ou outra. Na verdade, a ter que escrever algo em conjunto com ele eu preferiria fazer o 'Justino escreve', mas para não atropelar a idéia do colega fiquei por isso mesmo. Virei colaborador.

Na verdade eu não sei o que deu na telha do cara pra me chamar aqui para escrever. Eu sinceramente não tenho nada para falar, principalmente para vocês que são pessoas que eu nem conheço. Pra ser honesto, acho que o Jão abandonou essa tranqueira na minha mão pra ficar atualizando qualquer merda e falar que o blog tem conteúdo. Mas antes que a oportunidade se aproveite de mim, eu vou me aproveitar dela.

3 de fevereiro de 2009

Anti-merchandising

(começa com uma frase de efeito e termina com uma história real)

Emagreci 5kg nos primeiros dias: era a depressão que me roia os ossos. Te amei, te amava (os tempos verbais todos se confundem) por tanto tempo, que o simples pensamento de amanhecer sem a perspectiva de você me azedava a boca, ao ponto que a comida que entrava, quando entrava, era pouca e caia mal no estômago.

Chorei. Chorei absurdos, a tal ponto que acreditei ter perdido os 5kg assim: no choro. Tornei-me inútil e tão pouco necessário. Apenas ficava ali, parado, num transe. As coisas paradas se mexiam e por alguns momentos te vi atravessar a porta desesperada, em vão. Tua imagem virou pintura na porta por onde te vi passar e dizer adeus.

Comecei a fumar e cheguei a arquitetar minha própria morte. Deixei os dois, pois nenhum caminho me levava para o teu lado.

Passei a me torturar com as fotos de nós dois juntos. Amei-te tão profundamente que seria capaz de construir a ponte no abismo, brotar uma rosa no chão. Quis teu cheiro em um vidro para dele fazer meu vício, meu perfume diário e ocasional. Nada ficou senão a sua imagem, e as nossas fotos, na minha mão, se apagavam com tamanho querer.

Hoje sou resoluto e batalhador. O tempo fez questão de apagar as nossas memórias, mas como um jarro de água no deserto, restaram de mim 5kg a menos de gente e uma sede absoluta que rios, lagos e oceanos não conseguem levar.

26 de setembro de 2008

Alegria Barata

A vida anda cada vez mais corrida e cheia de empecilhos para se viver. Que se dirá de nós, nesse presente de 30 anos depois de hoje, onde as coisas tornaram-se menos humanas e tudo gira em torno do dinheiro?

Fato é que nesse nosso futuro-presente, os avanços tecnológicos se fizeram presentes e coroaram a civilização com a maior das invenções: a alegria. Não a alegria, sentimento que brota como uma flor que rompe o asfalto, mas a alegria essência. Através de processos físico-químicos complicadíssimos, cientistas conseguiram sintetizar em sua forma mais pura a alegria, nosso remédio de cada dia.

Não demorou para cair na industria a miraculosa fórmula, que deu à alegria as mais diversas formas para consumo humano: latas de 350ml, garrafas de diferentes volumes, em pó (para ser misturado com água ou inalado), em pastilhas, drágeas, para fumar, injetável, emplastro, creme, etc etc. O número de opções era tamanho que logo a alegria tornou-se bastante acessível às mais diversas classes sociais. Foram os tempos da alegria barata.

O efeito colateral, não previsto pelos químicos e farmacêuticos, é que a alegria gerou uma dependência em massa sobre seus consumidores. A alegria então tornou-se a droga legalizada com o maior número de dependentes químicos em toda a história da humanidade. Em pouco tempo, a especulação sobre a necessidade da alegria elevou os preços de todos os produtos, de tal modo que a alegria passou a se tornar artigo de luxo perante a sociedade.

A maioria da população passou a consumir a alegria em doses cada vez mais espaçadas, na tentativa de dar um pouco de sabor e cor em tempos tão cinzentos de máquina, cotidiano e contas a pagar. Mas certamente os maiores afetados pelo processo foram as classes menos privilegiadas, que passaram a não encontrar em sua existência um resíduo de alegria. Persiste no tempo a sabedoria popular de até hoje: "alegria de pobre dura pouco". E a nossa (nos dias de hoje) muito menos.

26 de agosto de 2008

Retrato IV

Súbito o susto ao me deparar pela manhã ao lavar o rosto o fato que não possuia mais boca. Fora apagada da minha existência como se por um capricho de Deus houvesse a borracha do existencial e com algum atrito sumisse com minha boca. Queria abri-la, por dentro, mas a pele a envolvia como a mais forte fita.

Desesperado, saí de casa em busca de amparo e quando percebo estou no meio da rua de pijama. A porta magicamente some atrás de mim. As pessoas andam indiferentes a sua situação: sem sorriso, sem boca. Entro em um banco e tento pegar a caneta com a qual se preenche os dados dos depósitos nos envelopes, quando sou duramente repreendido pelo guarda com uma porrada na mão. Ele, incapaz de falar, me olha com reprovação e saio.

Torno à rua, mas não estou mais lá: me encontro agora num desfile de carnaval. As mulheres sem bocas persistem e rebolam seus corpos semi-nus para uma platéia que, na falta de grito, arregala bem os olhos para poder ver e demonstrar sua aprovação. Sinto um beliscão do diretor de evolução da escola, que me aponta para o fim da avenida (pedia que eu fosse para lá...) e fazia mimicas de alguém desfilando (...alegremente). Como é possível ser alegre sem sorrir?

Ao final, desemboco por outra travessa do tempo-espaço e me encontro numa editora de um influente jornal. Desesperado, pego a primeira caneta que me aparece e um pedaço de papel e chamo atenção de uma pessoa qualquer. Tento escrever, mas minha mão vacila insistentemente e a sinto formigar após um certo tempo. Não posso escrever. Meu suposto interlocutor me reprova cerrando as sobrancelhas e mandando eu me fuder com um gesto. Sinto vontade de mijar e entro no banheiro

onde (como já era de se esperar) não estou no banheiro. Estou num cemitério com um jazigo aberto onde não contenho a minha vontade e mijo, ali mesmo. Um cortejo de sem bocas aparece carregando consigo um caixão cheio de textos meus: os que eu escrevi, os que eu não terminei, os que eu não escrevi e os que nunca me passaram pela cabeça escrever. Jogaram com força cova abaixo e foram embora, os homens de roupa e chapéu pretos.

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Quando acordo já é tarde. Sinto a necessidade urgente de escovar meus dentes e cerrar minha boca com a linha e a agulha do improvável, rumo a mais um dia de culto ao silêncio.