Não consigo dormir direito há uma semana. Os problemas de insônia começaram com o fatídico dia em que faturei sozinho um prêmio de 28 milhões de reais sozinho na loteria. Sinceramente não sei o que fazer com tal prêmio e as possibilidades turvam minha mente.
Senti-me intimidado com tantos zeros na conta bancária, e afim de não afetar relações entre amigos e familiares, não comuniquei a nenhum deles sobre a minha sorte. Tampouco a namorada, que tem me percebido demasiadamente apático e demonstrado sua preocupação comigo e conosco.
Não fui trabalhar essa semana. Na segunda não fui porque acreditava que não precisava; na terça não fui alegando mal-estar na família; na quarta tive uma crise paranóica e, com medo de que alguém desconfiasse de algo, não sai de casa.
Foi na quinta-feira que, bem discretamente vestido e sem aparentar grandes alegrias, fui até a lotérica onde fiz a aposta para reclamar meu prêmio. Uma grande faixa de "Aqui saiu o prêmio de 28 milhões de reais" estava logo na entrada. Criou-se um grande burburinho no bairro onde moro com relação a identidade do feliz ganhador da loteria. Eis-me lá. Falei baixo ao caixa:
'Sou o ganhador da loteria, gostaria de saber como posso retirar meu prêmio'
Ao passo que houve um grande rebuliço, com direito a sirene, buzinas e estouro de champanhe barato. De repente todos ali sabiam a minha identidade, e curiosos se aproximavam para saber o que acontecera. Fui congratulado, apertei várias mãos e as pessoas me enxergavam como uma imensa estátua de ouro ali, parada, perplexa. Após uma certa comemoração, a atendente me entregou um papel com as instruções de como retirar meu prêmio junto ao banco do governo (deveria ser lá, dado o montante a ser recebido).
Retornei para casa seguido por centenas de olhos famintos por qualquer quantia que pudesse aliviar as suas dores. Tornei-me uma espécie de santo pagão. Não consigo dormir direito há uma semana.
2009/06/28
2009/06/20
O feliz ganhador da loteria
Hoje aconteceu o inesperado. O que não passava de uma brincadeira despropositada (mas com um fundinho de fé) se tornou realidade hoje. Descreditei quando acompanhei os números na tela do computador batendo tal qual os da aposta que fiz ontem. E o resultado conferia: um único ganhador na mega-sena havia levado para casa sozinho 28 milhões de reais.
Exaltei-me, fiquei eufórico, e as axilas suavam como se estivesse correndo a maratona ao ver e rever o resultado. Mas sim, tornei-me o mais novo milhonário do quarteirão, do bairro, da cidade, do país. Chega dessa vida batida e cansada, desse dia-a-dia monótono e estúpido. Nada mais me importa: não precisarei mais ir ao trabalho na segunda e os trabalhos da faculdade todos podem ser adiados para sempre. Viverei de rendimentos da gorda poupança que se abre para mim.
Serei aclamado como salvador da pátria dos amigos e familiares endividados. Vejo todos congregrados ao meu lado, brindando à minha saúde e gozando comigo a minha própria sorte. Sequer sei o que farei com 28 milhões de reais, é muito mais dinheiro do que consigo imaginar. Nunca tive sonho de imóveis, automóveis, empreendimentos monstruosos. Talvez eu apenas queira viver no sossego de uma vida tranquila regada com as coisas mais básicas. Talvez compre uma casa na praia, onde passarei o resto da vida.
Pouco sei dizer sobre o futuro da exorbitante quantia. Só sei que, por hora, manterei segredo sobre esse fato. Ser milhonário implica em muitos riscos. Quem sabe o que o futuro me aguarda?
Exaltei-me, fiquei eufórico, e as axilas suavam como se estivesse correndo a maratona ao ver e rever o resultado. Mas sim, tornei-me o mais novo milhonário do quarteirão, do bairro, da cidade, do país. Chega dessa vida batida e cansada, desse dia-a-dia monótono e estúpido. Nada mais me importa: não precisarei mais ir ao trabalho na segunda e os trabalhos da faculdade todos podem ser adiados para sempre. Viverei de rendimentos da gorda poupança que se abre para mim.
Serei aclamado como salvador da pátria dos amigos e familiares endividados. Vejo todos congregrados ao meu lado, brindando à minha saúde e gozando comigo a minha própria sorte. Sequer sei o que farei com 28 milhões de reais, é muito mais dinheiro do que consigo imaginar. Nunca tive sonho de imóveis, automóveis, empreendimentos monstruosos. Talvez eu apenas queira viver no sossego de uma vida tranquila regada com as coisas mais básicas. Talvez compre uma casa na praia, onde passarei o resto da vida.
Pouco sei dizer sobre o futuro da exorbitante quantia. Só sei que, por hora, manterei segredo sobre esse fato. Ser milhonário implica em muitos riscos. Quem sabe o que o futuro me aguarda?
2009/03/28
Gênese canhestra
por Justino Jesus da Paz
Começou tudo errado na minha infância: meus pais tentavam mostrar para mim a importância de estudar e ter uma profissão boa. Não vou dizer que era relaxado para estudar, mas era sempre assim "Pai, porque eu preciso estudar?" "Pra ter um emprego bom, filho" "E pra que eu preciso ter um emprego bom?" "Pra conseguir pagar suas contas, filho". Meu pai nunca chegou pra mim e me disse: vai lá filho, seja feliz. Acho que ele deduzia que com um bom emprego e com as contas pagas eu seria feliz, e foi isso que eu deduzi também.
Na verdade eu até arrisco que hoje eu sou feliz. Por que? Porque eu pago as minhas contas. Não só as contas mas compro qualquer merda que eventualmente vá me fazer feliz. Sou muito feliz por causa das coisas que tenho, porque alguém me diz eventualmente que ter tal coisa deixa a gente muito feliz.
Troquei meu sonho de ser piloto de Fórmula 1 (inspirado pelo Senna), jogador de futebol (inspirado pelas copas), de ser astronauta ou mocinho de Hollywood (inspirado pelo cinema), policial ou bombeiro ou médico (inspirado pela função fundamental das profissões), cartunista ou músico ou artista ou escritor (que é o que eu realmente queria ser) por uma televisão de plasma de 50 polegadas. Fiz um ótimo negócio, pai. Troquei inclusive o casamento (o senhor nunca me falou nada sobre isso) por uma trepada ocasional no meu duplex. Uma pechincha, às vezes eu nem preciso pagar.
Consigo ser feliz também por ter superado essas porras todas que cruzaram meu caminho: a falta de vocação pra algo, a faculdade, a redação, minha frustração com incapacidade de mudar o mundo. O mundo é uma grande bosta muito maior do que a gente que manda a gente estudar e comprar TVs de plasma. Hoje meu pai tem orgulho de mim.
Me perguntaram algumas vezes: Justino, você quer ter filhos? Deus me livre de ter filhos. Um dia o guri vai vir pra mim e me perguntar pra que ele tem que estudar. Não vou saber responder no começo e logo em seguida vou mandar ele à merda.
Sobre o texto:
emprego,
felicidade,
filhos,
frustração,
Justino Jesus da Paz,
merda,
sonhos
2009/03/16
Desaventuras no jornalismo
por Justino Jesus da Paz
Pois bem, após algumas brigas com esse negócio todo aqui, eis meu segundo texto. Como eu falei antes, meu nome é Justino Jesus da Paz, amigo do proprietário dessa birosca, que está postando em caráter extraordinário para "recuperar o meu eu lírico", vulgo encher linguiça enquanto o João não pode. Grande coisa ter encontrado o cara depois de tanto tempo e ele me mandar escrever aqui, francamente.
Mas já que não tem muito o que fazer, vou escrever, afinal 'Justino escreve'. Vou contar a vocês o que me levou a me tornar jornalista. Para quem não sabe eu sou jornalista. Sou formado numa faculdadezinha mequetrefe que não vale a pena citar, principalmente porque não me ensinou nada do que faço hoje. Mas enfim, a única coisa que eu sabia fazer mais ou menos direito quando pequeno era escrever. A professora até elogiava os meus textos e falava que eu era uma criança criativa nas reuniões de pais e mestres. Minha mãe quando lia os textos achava no máximo bacana e meu pai claramente gostava mais de ler o jornal. Minha vó é quem deu trela e falou "aposto que um dia você vai ser um grande jornalista". Ela não falou escritor porque não queria que eu passasse fome. E deu no que deu.
Amarguei alguns anos de faculdade, regado a muita festa e tranqueiras, como todo bom universitário faz (se você não é, recomendo que entre na faculdade por esse motivo). Não vou dizer que foi ruim, vai. Aprendi a bolar baseados e corrigi alguns erros de português grotescos que eu cometia. Dei uma melhoradazinha no estilo com auxílio de alguns professores que realmente se preocupavam comigo. Estagiei na redação de um grande jornal daqui de São Paulo e outra de uma revista feminina de homem pelado. É, eu tava precisando bastante do dinheiro.
Na tentativa de impor minha visão crítica de mundo, voltei as redações de grandes jornais, mas não mais como o garoto que passa o café ou tira xerox, e sim como o redator. Mas tomei no cu: meu chefe queria que eu escrevesse exatamente como ele pensa. Sabe como é, se eu não escrever como ele pensa, que é como o chefe dele pensa, ele se fode e eu vou junto na roda. Enfim, fiquei desgostoso com isso. Não posso nem me expressar como eu quero nessa merda de profissão. Talvez na revista de homem pelado as pessoas me ouçam mais do que nessa bosta de redação.
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